REVIEW | As Bruxas de Terry Pratchett

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Conheci Terry Pratchett há um ano. Que é como quem diz, tive a minha introdução à saga Discworld no Verão de 2014. Não comecei pela primeira obra publicada (The Colour of Magic) e muito menos por um conjunto de livros que fornecessem a ordem cronológica de aventuras de um grupo de personagens. Soa estranho, mas uma das razões que tornam este universo especial é que uma pessoa pode iniciar a sua viagem das mais variadas formas e seguir o caminho que preferir de acordo com os seus interesses. Há um mapa e tudo! No meu caso, Monstrous Regiment foi, o que se pode considerar, o primeiro armário com passagem directa deste mundo para Discworld. A intenção foi dar-me a conhecer a magia da palavras de Pratchett, quer nos trocadilhos que fazem soltar gargalhadas em público, quer nas lições de moral que se entranham nas páginas, sem sentir o esmagamento psicológico que qualquer saga com mais de 30 livros causa a um leitor. O resto, como se costuma dizer, é história.

The Maiden, the Mother, and… the Other One.

“The Witches Series” segue as peripécias do Lancre Coven do qual fazem parte Granny (Esmerelda) Weatherwax, Nanny (Gytha) Ogg e o seu gato Greebo, Magrat Garlick e, mais tarde, Agnes Nitt. É universalmente conhecido que não há bruxas sem magia. Porém, estas personagens baseadas no folclore Britânico e seguindo os arquétipos da Triple Goddess (the maiden, the mother and the crone), pouco utilizam o poder que as torna tão famosas. Ao contrário dos feiticeiros, as bruxas preferem seguir o senso comum, algum trabalho e botânica e um género de psicologia denominado de headology. Proficientemente utilizado por Granny, headology requer um conhecimento profundo da mente humana de modo a atingir os seus fins, ou seja, levar a pessoa a acreditar em algo mesmo que isso não esteja a acontecer na realidade. Esta escolha de não utilizar magia quando há outras hipóteses não está relacionada com o poder da sua magia ou a falta dele. Ainda em referência à reinterpretação dos arquétipos, este ou qualquer outro clã tem de ser sempre constituído por três bruxas. Tal como é explicado, duas acabam sempre por se chatear uma à outra, sendo a terceira o elemento que termina com as discussões para que possam as três intrometerem-se na vida do resto da população.

Este conjunto de livros voou-me pelas mãos. Não me recordo da última vez que li seis livros e uma short-story com os mesmos protagonistas tão rapidamente. Fui enfeitiçada? Talvez. Acredito que a magia de Terry Pratchett tenha surtido algum efeito sobre mim. O que deixo dessa mesma magia é uma introdução à narrativa e observações que acho essenciais para cada um dos volumes.

Equal Rites (1987) ★★★★☆
Quando um feiticeiro moribundo passa o seu bastão a um oitavo filho de um oitavo filho que está prestes a nascer, mal sabe ele o abalo que cria em Discworld para aqueles que continuam vivos, porque o oitavo filho do oitavo filho é de facto uma filha. Eskarina Smith torna-se então na primeira feiticeira do sexo feminino em todo Discworld e é a sua aventura que seguimos, desde a sua educação como bruxa com Granny Weatherwax até à viagem à Unseen University para ter a educação que é sua por direito, e mais nenhuma outra, desde o momento em que tocou no bastão

Tal como o título indica Equal Rites trata de diferenças entre género. Neste mundo os homens são feiticeiros e as mulheres são bruxas, havendo uma diferença intrínseca no próprio método de fazer magia. Porém, esta separação não obedece a leis impostas que ditam o modo como o mundo se rege, parecendo ser somente um preconceito cultural, “the lore”. É esta ideia misógina que Eskarina, com a ajuda da Granny Weatherwax, tem de combater e sai vitoriosa, provando que, mesmo que as mulheres supostamente não sejam feiticeiras, também o podem ser.

Tratando-se apenas do terceiro livro pela ordem de publicação torna-se perceptível as transformações que a escrita de Pratchett sofreu, tal como em qualquer escritor que constrói um mundo imaginário novo e as regras que o mantêm, mas, especialmente, a construção da personagem de Esmerelda Weatherwax que parece apenas um protótipo da cranky, respeitada e poderosa Granny a que Pratchett nos habitua mais para a frente. Não deixa de ser, no entanto, uma leitura que diverte e delicia os seus leitores.

Wyrd Sisters (1988) ★★★★☆
O Rei de Lancre é morto. O Duque Felmet usurpa o seu trono. O herdeiro é escondido numa companhia de teatro para ser protegido. Três bruxas intrometem-se numa intriga de política real para que o rei legítimo chegue ao trono e a paz seja restaurada em Lancre. Sim, temos Shakespeare nas mãos de Terry Pratchett que faz a sua versão de Macbeth.

Reintroduzindo Granny Weatherwax agora na companhia de Nanny Ogg, matriarca da família Ogg, e Magrat Garlick, a bruxa mais nova, o leitor entra num mundo onde a palavra, escrita ou falada, tem um poder enorme nas pessoas e afecta a sua percepção da realidade. É também uma história sobre o destino e em como são as pessoas que o controlam; é a pessoa que cria a sua própria direcção na vida. A resolução de quem fica no trono é exemplo disso. Em termos gerais pode-se dizer que é um livro sobre poder nos seus mais variados sentidos: poder de um rei que afinal não tem assim tanto, o poder da arte e o poder que temos sobre nós próprios para delinear o nosso próprio futuro.

Mesmo para quem não é amante de teatro ou particularmente apreciador de Shakespeare, Wyrd Sisters tem uma narrativa hilariante, com direito a convocações de demónios e a introdução magnífica de Granny ao teatro, que entretém o leitor do início ao final.

Witches Abroad (1991) ★★★★★
Quando Desiderata Hollow morre e deixa a sua varinha nas mãos de Magrat Garlic, estão não tem conhecimento da aventura que lhe espera. Ao herdar a varinha, tornou-se (fada) madrinha de Emberella, uma empregada doméstica, e, juntamente com Granny Weatherwax e Nanny Ogg, tem de voar até Genua para que a sua afilhada não case com o príncipe. É importante saber que há duas madrinhas: uma boa e outra má, e uma delas não vai descansar até conseguir o seu final feliz digno de um conto de fadas.

Maioritariamente baseado em Cinderella é a reviravolta que todos os autores de histórias de encantar se recusam a escrever, porque o género de “viveram felizes para sempre” não encaixa no canon. A ideia de que as personagens têm de estar totalmente felizes ou de que uma história tem de ter um final feliz para ser boa está tão intrínseca nestas histórias que ninguém pergunta se será o final certo. Talvez seja por isso que Witches Abroad mexe neste assunto, uma vez que a natureza das bruxas não está no fazer bem ou mal, mas sim distinguir o que é certo do errado e actuar sobre isso.

Assim, Pratchett questiona todos os clichés e dá-nos uma história sobre o destino e o poder de histórias com o final correcto e a ideia de que bruxas englobam tudo aquilo que uma pessoa acha terrível em turistas. Algo que destaca este livro é o facto de ser completamente centrado em torno dinâmica entre as mulheres, ou seja, para além de serem cinco as personagens femininas principais, as motivações também advêm da resposta das acções de umas para as outras.

Witches Abroad pode ser divertido, mas sente-se uma mudança no ambiente que marca o inicio de uma maior seriedade e obras com elementos mais negros. É aqui que uma pessoa começa realmente a ficar preocupada com as personagens e a não tomar como garantido que vão sobreviver no final, embora hajam mais livros pela frente que comprovam o estado de vida do Lancre Coven.

Lords and Ladies (1992) ★★★★★
Porque nem mesmo com um casamento real à porta Lancre tem descanso. Elfos estão a invadir o país e estes não são os elfos belos e simpáticos a que Tolkien nos habituou. Pratchett escolhe a concepção de elfo a que o leitor já se desacostumou: assustadores e cruéis, quase psicopatas que entram na mente das pessoas de modo a que estas obedeçam a tudo aquilo que pedem e assim tomar controle do mundo. A população de Lancre devia lembrar-se da verdadeira natureza dos elfos, mas as memórias que restam são poucas, limitando-se à beleza deles e às ferraduras que deixam nas portas, embora não tenham bem a noção da razão.
Sem tirar o mérito do confronto entre a Granny e a rainha dos elfos ou do momento em que Magrat encontra coragem e confiança em si própria e veste uma armadura de ferro para salvar o seu príncipe, este livro acaba por ser especial para aqueles que têm uma adoração por Esmerelda Weatherwax, pois há uma reflexão sobre o seu passado, o porquê de se tornar bruxa, a vida romântica que existiu e que continua em universos paralelos e outros aspectos que tornam esta personagem muito mais interessante.

Seguindo ainda uma vertente acerca do poder das histórias, Lords and Ladies mostra a importância em saber diferenciar o que é verdadeiro daquilo que queremos que seja verdadeiro, perceber realmente quem se é, e do livre arbítrio seja no condicionamento por modos mágicos de outras espécies ou para uma futura rainha que quer mais dessa vida do que passar o seu tempo a bordar. E não esquecer que beleza não é sinónimo de bondade. Uma história repleta de suspense e tensão que agarra o leitor no momento em que surgem os arrepiantes elfos e só larga na última palavra.

Maskerade (1995) ★★★★☆
Magrat Garlick tornou-se rainha de Lancre deixando um vazio tremendo no seio do Lancre Coven, e embora as restantes bruxas possam já ter escolhido a sucessora, Agnes Nitt parece ter outras ideias para a sua vida que não incluem bruxaria. Fugindo de um destino que não quer para si, Agnes junta-se à ópera de Ankh-Morpork onde apaixona os restantes membros com a sua voz. Mas num mundo onde a música domina também existem acontecimentos macabros associados a um homem que assombra todo o edifício da ópera e escreve risos maléficos com cinco pontos de exclamação em cartas que deixa aos proprietários. Soa familiar? Isso é porque estamos perante uma paródia de O Fantasma da Ópera e de tudo que acontece nos bastidores de uma ópera.

Em menos de 300 páginas, Pratchett conseguiu criticar o problema que a sociedade ainda tem com as aparências, maioritariamente no mundo do espectáculo onde o standard de beleza prejudica mais do que beneficia, e Discworld parece não ser excepção. Agnes, a que tem talento para cantar árias, empresta a sua voz a Christine, a que tem o físico “mais apresentável” para atrair audiências. A própria máscara do Fantasma acaba por remeter ao seu símbolo primordial; esconder o que se é, mostrar o que se poderá ser.

Ao contrário do que o leitor está habituado até agora, a resolução tem um sabor amargo. O mistério fica resolvido, mas a protagonista, Agnes Nitt, não tem o final feliz. Agnes perde tudo para todas as construções sociais a que foi sujeita, ou seja, perde o lugar na ópera por não corresponder à imagem de sucesso, o que a catapulta imediatamente para aquilo que estava a fugir em primeiro lugar, o seu lugar no Lancre Coven, pois não tem mais opções. Estará Pratchett a mostrar ao leitor o mundo como ele é em vez de como deveria ser como é seu costume?

Ainda que tenha os seus eventos sinistros, que acabam por ser suplantados pela demonstração do absurdo que existe no mundo da ópera e pelas receitas originais de Nanny Ogg, Maskerade é uma leitura mais leve em comparação com o livro anterior ou aquele que lhe sucede.

The Sea and Little Fishes (short-story, 1998) ★★★★☆
The Lancre Witch Trials estão de regresso a Lancre e o novo comité pede a Granny Weatherwax para não participar, uma vez que todos os anos é ela a vencedora. A surpresa acontece quando Granny aceita sair para que as outras bruxas tenham a oportunidade e ainda ajuda na preparação da competição e respectiva festa. É por esta altura que uma pessoa começa a pensar que entrou num universo paralelo em que Esmerelda Weatherwax é uma pessoa simpática. Está tudo errado! Ou está mesmo? A psicologia é algo fascinante e a consciência algo da qual é impossível uma pessoa se dissociar. A culpa por mais ninguém ganhar anteriormente era colocada na simples presença autoritária e respeitosa de Granny, pois sabiam logo que iam perder, todavia a Granny sai da festa antes da competição começar e o dia acaba sem ninguém conseguir realizar os seus feitiços, logo sem haver um vencedor.

Esta short-story é um testamento à prática de headology da qual Esmerelda Weatherwax é a rainha.

Carpe Jugulum (1998) ★★★★★
Four witches, a family of vampyres and a priest walk into a bar…

Os monarcas de Lancre, Rei Verence II e Rainha Magrat, querem festejar o baptismo da sua filha com todo o seu reino. Num surto de simpatia e modernismo já conhecido, o rei convida os Magpyrs, uma família de vampiros oriunda de Uberwald, que não têm ideias tão democráticas para a população de Lancre. Cabe então às bruxas locais unir forças com um padre de Om para combater estes seres meio-mortos meio-vivos e manter a paz no país.
Comparado muitas vezes a Lords and Ladies creio que dentro das semelhanças, este livro vale por si próprio e pelos seus temas mais sinistros que tornam a leitura ainda mais cativante. Pratchett, ao contrário do que faz com os elfos, altera todo um folclore que o público conhece desde as primeiras histórias de controladores de mente e sugadores de sangue. Vampiros que deliberadamente se transformam numa espécie mais “moderna”, sem as típicas fraquezas, de modo a tornarem-se em vilões mais temíveis? Quem sabe alguma coisa de vampiros descobre rapidamente que não sabe nada.

Em termos práticos este é um livro que une relações de moralidade, religião e fé num pacote repleto de escolhas que as personagens têm que aprender a tomar e decidir por si próprias o que está certo e errado. Descaradamente moral com um ritmo acelerado onde se segue uma quantidade enorme de pontos de vista e provavelmente um dos livros em que o leitor é testemunha do quão poderosa, determinada e corajosa Granny Weatherwax realmente é, ainda assim há tempo para o típico humor de Terry Pratchett.

Carpe Jugulum com os seus temas mais sombrios é facilmente um dos livros que entra para a lista de favoritos nesta saga com a frase-chave que fica a ecoar no cérebro dias depois de ter terminado.

And sin, young man, is when you treat people as things. Including yourself. That’s what sin is.

Discworld é um universo enorme tanto na sua constituição interior como na quantidade de livros que Sir Terry Pratchett escreveu e são estas as duas maiores razões pelas quais os fãs devem estimar este legado onde crianças aprendem a ver o mundo e adultos compreendem o que ainda há para mudar.

Em suma, e como referi na primeira review que escrevi no Goodreads, ler livros de Pratchett é como estar na vossa aula favorita com o vosso professor favorito onde aprendem sobre a humanidade e se divertem. Ficam sempre entusiasmados por mais. Eu mal posso esperar por continuar esta aventura.

Roslin

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