SEGUNDA GUERRA MUNDIAL | A Bibliotecária de Auschwitz

Título: La bibliotecaria de Auschwitz
Autor: Antonio G. Iturbe
Ano de Publicação: 2012
Sinopse: Auschwitz-Birkenau, o campo do horror, infernal, o mais mortífero e implacável. E uma jovem que teima em devolver a esperança. Sobre a lama negra de Auschwitz, que tudo engole, Fredy Hirsch ergueu uma escola. Num lugar onde os livros são proibidos, a jovem Dita esconde debaixo do vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu. No meio do horror, Dita dá-nos uma maravilhosa lição de coragem: não se rende e nunca perde a vontade de viver nem de ler porque, mesmo naquele terrível campo de extermínio nazi, «abrir um livro é como entrar para um comboio que nos leva de férias». (fonte)

Segunda Guerra Mundial. O Holocausto. Enquanto houver memória e relatos acerca deste assunto as histórias continuarão a ser contadas, lidas e partilhadas. A importância a respeito da sua veracidade ou conteúdo ficcional é pouca, uma vez que a fonte que serve de inspiração é, ou melhor dizendo, foi real o suficiente para suportar toda uma narrativa de personagens inventadas. Porém, pode-se questionar o porquê, passados 70 anos da libertação dos judeus dos campos de concentração, as pessoas ainda quererem ouvir estas histórias que mais parecem saídas de um filme de terror e que nada se deveriam assemelhar à realidade. Não é só a beleza ou o desconhecido que provocam curiosidade e fascínio nos seres humanos e, por essa mesma razão, creio haver uma mistura desses dois sentimentos em nós sobre este tema que não conseguimos suprimir. Queremos perceber a razão por detrás destes horrores e atrocidades cometidos por humanos sobre outros humanos; queremos entender como é que uma pessoa conseguiu levar parte da humanidade a acreditar que o que estava a acontecer era o correcto. Será a sede de poder tão implacável que justifique a extinção de um povo? Procuramos exaustivamente explicações em filmes, livros ou qualquer documento em que conseguimos pôr as mãos e saímos sempre em branco. Perturbados acerca da natureza humana, sem dúvida, mas a saber o mesmo que sabíamos antes. Nada.

Antonio G. Iturbe, jornalista cultural há mais de vinte anos, teve a ideia de escrever um romance acerca de uma pequena biblioteca que existiu no meio de um campo de concentração. Qualquer pessoa que mostre interesse por arte, seja esta de que formato for, sente qualquer coisa a remexer dentro de si quando vê as palavras “biblioteca” e “campo de concentração” na mesma frase e quer saber mais. Iniciou assim uma profunda pesquisa que passou por visitar Auschwitz-Birkenau e ler outros livros de memórias de testemunhos dessa época. Quis o destino que entrasse em contacto por email com a própria rapariga, agora uma senhora de idade, que cuidou dessa biblioteca. Iturbe conheceu Dita Kraus, conversou com ela e ajudou-a a reviver um passado doloroso, o qual ela não se importou de partilhar. Há coisas que têm de ser lembradas para evitar repetição.

Surge então A Bibliotecária de Auschwitz, romance baseado em factos verídicos que conta a história de uma menina adolescente, Dita Alderova, que ficou responsável por oito livros no Bloco 31 de Auschwitz-Birkenau, um dos maiores campos de extermínio do regime nazi. Logo de início se nota que é uma escrita crua, sem sentimentalismos, que não tenta atenuar a realidade de modo a que o leitor não fique abalado. Pelo contrário, o leitor é imediatamente assolado pela indiferença dos soldados nazis perante a morte causada pela ideologia que defendem e pelas descrições duras do que sucedia nas câmaras de gás, das humilhações que os prisioneiros sofriam e o que faziam aos cadáveres. Mesmo assim, quando se é absorvido pela leitura, o conhecimento de não ser apenas um romance vai desvanecendo a pouco e pouco, embora surja, repentinamente como um murro no estômago, nos momentos em que o autor mostra números e estatísticas.

Em Auschwitz a vida humana vale menos que nada; tem tão pouco valor que já nem sequer se fuzila ninguém porque uma bala é mais valiosa do que um homem.

A narrativa começa já em Auschwitz, 1944, e é num frenesim apavorado devido a uma inspecção repentina por parte dos SS ao Bloco 31 que o leitor conhece a sua protagonista de pernas magras que corre para esconder aquilo que está incumbida de cuidar. Contudo é através das lembranças e do álbum de fotografias mental de Dita que se torna possível criar toda uma cronologia de acontecimentos que levaram àquele momento. Antonio Iturbe não separa o seu romance com capítulos entre o passado e o presente, preferindo utilizar analepses no meio da acção e no momento que acha mais pertinente, o que permite ao leitor ficar ainda mais absorto na história. Esta técnica podia tornar a leitura confusa, saltando de uma época para a outra apenas com uma frase, mas a sua escrita é tão maravilhosa e fluída que, em vez de travar subitamente a compreensão, dá uma continuidade natural ao enredo.

A mudança na vida de Dita está directamente relacionada com a invasão de Praga por parte das tropas alemãs. Ela tinha apenas 9 anos. Pouco mais tarde é enviada juntamente com a sua família para Terezín, um gueto murado, utilizado pelo Terceiro Reich como uma “cidade modelo” para judeus. O que era na realidade um campo temporário para mais tarde as pessoas serem enviadas para os campos de concentração, servia como propaganda de modo a esconder o que estava a acontecer do resto do mundo, uma vez que, mesmo não tendo uma vida excepcional, podiam mostrar a instituições como a Cruz Vermelha que as famílias trabalhavam, eram alimentadas e que as crianças continuavam a ser educadas no meio do caos da guerra. Aos 14 anos é mandada para o que muitos consideram o inferno, um local onde a indústria pela qual é conhecido é a indústria da morte. Auschwitz-Birkenau com os seus portões de ferro que ainda hoje gritam ensurdecedoramente no seu silêncio “Arbeit macht frei” (“O Trabalho Liberta”) a qualquer visitante, tinha diversos campos, entre eles o campo familiar com o famoso Bloco 31, a escola e biblioteca mais clandestinas de toda a Europa, dirigido por Fredy Hirsch. É Fredy quem oferece a Dita o trabalho importante e perigoso de bibliotecária e é neste campo que ela continua a aprender, ajuda na educação de outras crianças e mais indispensável à sobrevivência, ajuda-as a esquecer o local estéril e cinzento onde vivem, permitindo que estas imaginem e sonhem com uma vida e um mundo melhor, algo do qual muitas já não têm lembranças. Posteriormente, e pensando que a vida não podia tornar-se pior, faz parte do grupo de prisioneiros que é mandado para Bergen-Belsen, campo onde o verbo “sobreviver” é trocado por “definhar” e de onde é libertada em 1945 pelas forças aliadas.

Se os nazis proíbem os livros, é porque os livros estão do seu lado.

A Bibliotecária de Auschwitz não é um livro fácil de ler. Embora seja o relato da vida de uma pessoa, é igualmente o observar intenso das condições chocantes e desumanas em que um povo inteiro era submetido a viver por loucura de outro; é ver pessoas levadas ao seu instinto de sobrevivência primordial, não sendo possível diferenciar entre animais e humanos. Seguindo esta perspectiva animalesca surge uma degradação moral nos valores dos próprios judeus, há rancor perante aqueles que ganhem mais qualquer coisa dos guardas que não concordam com o que está a ser feito, perde-se a confiança nos companheiros porque vender segredos aos nazis é vantajoso e ninguém acaba por ser o que aparenta, uma vez que é necessário esconder pedaços de si e pensamentos que podem prejudicar ainda mais o seu estado. É angustiante saber que, para além da desumanização causada por terceiros, também os próprios prisioneiros se viram uns contra os outros num mecanismo de defesa que impossibilita a solidariedade entre si.

Por outro lado, os oito livros de Ditinka, alcunha carinhosa da amiga Margit, que chegavam apenas às crianças e aos professores, eram a chama que mantinha as mentes entorpecidas acordadas, o escape de um mundo onde reinava o medo. Nos pequenos momentos em que tinham oportunidade de pegar nos livros ou ouvir as suas histórias, repetidas ou não, as pessoas que estavam dentro do Bloco 31 viviam. Por isso eram perigosos e proibidos por Hitler. Tudo o que provocasse pensamento nos prisioneiros seria prejudicial para o seu Reich. Ninguém quer prisioneiros com ideias. Isso demonstraria raciocínio e inteligência por parte daqueles considerados inferiores. Não. O que se quer são prisioneiros que obedeçam. Pode não ter sido a pequena biblioteca que derrotou Hitler, mas foi a que salvou muitas pessoas. A cultura e a arte podem não ser precisas para a Humanidade sobreviver, mas são essenciais para que esta viva, crie e resista a horrores, nem que seja por mais um dia.

Não são apenas os livros, no entanto, que proporcionavam essas pequenas e efémeras bolhas de satisfação. Quando Rudi Rosenberg oferece à jovem Alice Munk um pedaço de comida e repara mais tarde que esta trocou-o por um diadema que usa na cabeça em vez de comer, não compreende a lógica por detrás de tal acto. Não percebe que Alice não viveu a infância ou a adolescência, não brincou ou vestiu roupas bonitas como provavelmente os seus pais imaginaram quando nasceu. Rudi não percebe que o diadema ao fazê-la sentir-se bonita, por mais curto que seja esse sentimento, alimenta-a mais que do que a comida. A felicidade em Auschwitz é medida em instantes.

Porém, há um desânimo palpável que assola o campo familiar e salta das páginas. Ao contrário de Dita que tem uma força interior imensurável, muitos parecem pequenas caixas de pandora a abrirem todos os dias e a perderem a esperança algures no lodaçal. Não é fácil ler quando o desespero chegava a um nível tremendo que as tentativas de fuga do campo passavam por uma tentativa de liberdade transcendente ao pensamento do homem comum. Viver ou morrer diluíam-se numa única linha, o medo chegava ao fim e o que mais interessava era não existir mais naquela degradação. Sabiam que se fossem apanhados iriam ser mortos, mas isso significava ser livre sem sofrimento.

A libertação provoca emoções fortes até a quem se regozije de ter um coração forte. Não são gritos de alegria que se ouvem, não são gargalhadas ou lágrimas eufóricas que os soldados britânicos testemunham. Não há forças e os vivos estão indistinguíveis dos mortos com mentes demasiado vazias, como se a alma dentro da pessoa tivesse desistido e deixado o corpo para trás, sozinho e entregue aos seus próprios meios. Uma simples pergunta é o que se sobrepõe a tudo: porque é que demoraram tanto tempo? A guerra durou mais que muitas vidas.

Em Auschwitz o tempo não passa, arrasta-se.

Antonio G. Iturbe diz no final de A Bibliotecária de Auschwitz que nunca tinha acreditado em heróis. Até conhecer Dita. Normalmente, as pessoas a quem se dá este título não se reconhecem como tal e consegue-se compreender o porquê de Dita sentir-se assim. É uma sobrevivente entre muitos e uma das que teve mais sorte que outros. É difícil ver-se como heroína numa situação destas. Todavia, são vidas como esta que fazem os humanos acreditar em heróis e não os bonecos que aparecem em bandas-desenhada. É a força sobre-humana de Dita, cujo fim esteve perto, a roleta podia parar no seu número a qualquer momento, que nos faz acreditar que é possível ultrapassar (nunca esquecer) os mais horrendos acontecimentos.

Ao tornar-se bibliotecária do Bloco 31, Dita Kraus não foi somente a guardiã de livros, armas letais num mundo governado por balas e câmaras de gás, mas principalmente um farol de esperança para aqueles que a acompanharam nesta viagem infernal, nunca vergando ao mal que a rodeava. Conhecer a sua história, semelhante à de tantos que não tiveram oportunidade para a contar, deixa-nos assombrados com a crueldade humana, mas melhor ainda, deixa-nos maravilhados com a sua vontade de viver e a coragem. É uma verdadeira lição onde a grande doutrina passa por valorizar a vida acima de tudo.

Dita Kraus (nascida Dorachova) casou mais tarde com Otto Kraus (Keller no romance), autor de The Painted Wall, que também retrata o campo familiar. Foi a compra deste livro que impulsionou esta obra cuja frieza a torna numa leitura magnífica que requer reflexão.

★★★★★

Roslin

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