SEGUNDA GUERRA MUNDIAL | Se Isto É Um Homem

Levi
TítuloSe Questo È un Uomo
Autor: Primo Levi
Ano de Publicação: 1947
SinopseNeste clássico da literatura contemporânea, Primo Levi dá um testemunho pungente de uma tragédia que afetou milhões de pessoas. Considerado o mais belo livro já escrito sobre a existência massacrada dos judeus deportados, É isto um homem? Não é, no entanto, um relato carregado de ódio e vingança. Desprovidos de saúde, os judeus nos campos de extermínio dificilmente poderiam ser identificados com os homens que eram antes da tragédia. Muito menos seus algozes sem rosto, senhores de escravos, mas sem vontade própria, num campo de morte onde ela, afinal, era o menor dos males. (fonte)

 Se gostavam de ler um livro que constitui um retrato real na primeira pessoa, sem floreados, sem medo de chocar ou expor e o mais directo ao assunto possível, parabéns. Este é o livro certo e espero que o leiam. Não vai ser “bonito”, nem leve, nem fácil de ler. Vai ser um desafio, vai possivelmente chocar-vos e vai, sobretudo, fazer-vos pensar na condição humana (Literalmente o que é um homem? Um animal? O SS Alemão? O Judeu que se torna num número e num trabalhador?) e nas consequências provocados pela estadia prolongada num campo de extermínio e trabalhos forçados.

Primo Levi escreve de uma forma que poucos conseguem, especialmente se tivermos em conta as circunstâncias deste homem que teve de reviver anos terríveis da sua vida para escrever as suas memórias. Não obstante, nada na sua narrativa dá a entender que ele quer que sintamos pena dele porque aliás o livro nunca fica assim tão pessoal. Pelo contrário, é uma escrita de denúncia e de exposição da verdade nua e crua, tal como ela tem de ser dita. Denúncia das atrocidades a que Primo Levi assistiu e que também sofreu e das atrocidades que acontecem ao próprio espírito do Homem e da Humanidade quando se desvaloriza uma vida ao ponto de lhe tirar todo o significado.

“Não se deve sonhar: o momento de consciência que acompanha o acordar é o sofrimento mais intenso. Mas não nos acontece muitas vezes, e os sonhos não duram muito tempo: mais não somos do que animais cansados.”

O livro é quase uma espécie de diário, especialmente o último capítulo. Primo Levi começa por contar como foi capturado mas a maior parte da narrativa centra-se na sua vida em Auschwitz onde esteve cerca de um ano. As referências à Divina Comédia de Dante estão bem presentes, especialmente à secção do Inferno, e a própria obra faz parte da narrativa quando Levi recita partes dela. Além de Dante, a referência mais forte à religião e a Deus pode ser considerada algo chocante porque ocorre quando um prisioneiro agradece a Deus por não ter sido “escolhido” em detrimento de outro e Levi transparece a raiva que sente perante um cenário em que os prisioneiros parecem não se importam com o sacrifício do próximo desde que eles fiquem a salvo.

“Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em sima, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar? Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn.”

Pode parecer algo que não se espera, pelo menos eu não esperava, mas o leitor fica a saber das rotinas da grande ‘máquina’ que é o Lager (campo). E que rotinas são estas? Além da higiene matinal, do trabalho, da comida, das inspecções, das noites mal dormidas e repetição de tudo isto diariamente, também existe quase um conjunto de estratégias que os prisioneiros desenvolvem para sobreviver o melhor possível. Estas estratégias vão desde calcular qual o melhor lugar para ficar na fila da sopa, improvisar remendos, ter todo um timing para evitar ser roubado das poucas posses que se tem como o boné ou uma camisa extra, entre outras.

“Nos Lager perde-se o hábito da esperança e também a confiança na nossa própria razão. No Lager, pensar é inútil, (…)”

Por outro lado, o Lager em si é um ecossistema próprio com uma moral própria e um submundo só seu em que os prisioneiros mantém um mercado de troca e venda tanto entre eles como entre eles e civis com quem se encontram em segredo. O Lager oprime e força à adaptação porque a maior finalidade humana é sobreviver e o livro transparece isso de um modo objectivo. É uma luta constante entre o sucumbir e não sucumbir. Levi reafirma que o homem pode sobreviver à adversidade e à infelicidade extrema quando não deixa que todos os males assumam a mesma importância. No caso do Lager, a fome e o frio, por exemplo, não assolam uma pessoa ao mesmo tempo. Primeiro pensam que têm fome e mesmo depois de comerem e ainda a terem, pensam no frio. É através desta espécie de relativização que se mantém alguma sanidade, alguma força.

“(…) tudo aqui é nada, a não ser fome dentro de nós, e o frio e a chuva à nossa volta.”

Mas qual é o preço da sobrevivência no Lager? O que o livro transparece é a sensação de rebanho, de uma revolta silenciosa que nunca chega a ser audível e um sentimento de sofrimento tão profundo que custa a acreditar que realmente existiu ou é passível de ser sentido.  Homens que eram livres, tornam-se em homens sem dignidade e cuja vergonha os oprime de tal forma que a revolta não é possível.

“Destruir o homem é difícil, quase tanto como quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os alemães conseguiram-no. (…) da nossa parte nada mais têm a recear.”

A questão do valor humano é da maior importância. Em mais do que uma situação, Levi mostra ao leitor que o desdém é tal que muitos jovens, muitos maridos, muitos pais de família e, essencialmente, muitos homens acabaram por ser “seleccionados” e condenados só porque sim e só porque um qualquer oficial o decidiu. E este “só porque sim” é provavelmente a parte mais horrível do livro. É uma tal indiferença pela vida de outro ser que tanto faz quem morre desde que se chegue a uma certa quota e se mantenha o número suficiente para continuar o trabalho. Se isto não é a definição de crueldade, não sei o que o será.

“Uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque é não humana a experiência de quem viveu dias em que o homem foi uma coisa aos olhos do homem.”

Por outro lado e, numa perspectiva mais leve, Levi introduz o leitor a vários personagens que se cruzam com ele. Gostava de vos falar de três em especial. A primeira é Alberto, um dos maiores amigos que Levi faz no Lager, mas que acaba por falecer momentos antes da libertação final. Quando Levi diz que o espera ver novamente quando Alberto parte, senti um nó no estômago e depois confirmou-se o meu pressentimento de que ficaria tudo por acontecer a Alberto, especialmente o momento de liberdade. A seguir a Alberto, Charles e Arthur são dois homens que foram fundamentais para os momentos finais de Levi no Lager antes da chegada dos Russos. Por serem prisioneiros mais recentes, conseguiram organizar e manter tudo o mais estável possível até ao momento final e são eles que acabam por, mais tarde, ainda fazer parte da vida de Levi quando são todos homens livres. Além destes três homens que referi, se tiverem oportunidade, reparem numa personagem chamada Elias. É no mínimo caricato e não quero contar-vos muito porque têm de ler para acreditar.

Uma das coisas que conclui na minha leitura é que Lager e Humanidade nunca poderão ser sinónimos. Homens viravam-se uns contra os outros mas assim que aquele ambiente de controlo acaba e os SS desaparecem do local, os prisioneiros são capazes de ser solidários novamente e de pensar na sobrevivência colectiva e não apenas pessoal.

Para terminar deixou-vos com uma das passagens que mais me emocionou no livro e que vai de encontro, na minha opinião, à questão colocada pelo título. Espero que vos faça reflectir e que vos dê arrepios.

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. (…) chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence (…) Tirar-nos-ão também o nome (…) Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e do bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio; reduzido a tal ponto, que outros poderão sem problemas de consciência decidir da sua vida ou da sua morte para além de qualquer sentido de afinidade humana; (…) Compreender-se-à então o duplo significado de «campo de extermínio», e será claro o que entendemos exprimir com esta frase: jazer no fundo.”

★★★★★

Ms. Brightside

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