REVIEW | Ex Machina

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Ex Machina, realizado por Alex Garland, estreou este ano e sim, nós sabemos, provavelmente já devíamos ter visto há mais tempo mas só tivemos oportunidade recentemente. De um lado, Ms. Brightside com a sua curiosidade e relutância cujas razões perceberão já a seguir. Do outro, Roslin com a sua euforia para ver mais um filme sobre artificial inteligences a dominar o mundo dos seres humanos.

One day the AIs are going to look back on us the same way we look at fossil skeletons on the plains of Africa. An upright ape living in dust with crude language and tools, all set for extinction.

Este filme é o primeiro que vejo que vem da mente de Alex Garland, também responsável pelo argumento. A primeira impressão que tive é que tinha perante mim um filme muito bonito do ponto-de-vista visual. Especialmente a partir do momento em que Caleb (Domhnall Gleeson) vai para a casa de Nathan (Oscar Isaac) no meio do ‘nada’ num sítio rodeado por montanha e floresta mas que é um exemplo de arquitectura moderna e apelativa. A casa em si tem imensas janelas apesar de uma parte dela ser quase uma espécie de bunker subterrâneo vigiado por câmaras internas ocultas. No entanto, a maneira como Garland nos mostra tanto os cenários como as interacções (ainda que bastante estranhas e tensas) entre as personagens, resulta em imagens muito limpas e bonitas, o que me deixou a pensar se ele nos tentou distrair do cerne da questão, tal como Nathan fez com Caleb.

Tirando a parte do visual bonito, o enredo em si não é demasiado complexo e tem, na minha opinião, um twist previsível e outro twist assim mais bonzito mas nada de estrondoso. No entanto, o jogo e o significado dos nomes ao longo do filme é interessante e desculpem se estou a ir demasiado longe mas não consigo resistir. Mal Nathan introduz Ava, para mim foi óbvio que o nome e a sua alteração não foram ao acaso. Ava é a primeira AI (Artificial Inteligence) e é uma mulher, será que é demasiado ver uma referência a Eva?! Seria possível fazer uma analogia religiosa mas deixo isso para outro dia antes que alguém fique a pensar que estou a ir longe demais. Mas ainda neste tópico, deixou-vos a questão de “Deus Ex Machina” relacionado com o próprio título do filme Ex Machina, só assim para reflectirem um bocadinho. Pronto, ok. Já chega.

Quando Caleb começa a trabalhar com Ava (Alicia Vikander), a inteligência artificial criada por Nathan, a sensação de que algo não está bem é notória e claro que isso é esperado. Obviamente que usar um humano para testar uma criação humana com o intuito de ficar a saber se ela consegue assimilar comportamentos e projectar emoções ou expor ideias de uma forma verdadeira ou convincente não podia acabar bem, mas o Homem nunca aprende, pois não?

Não me interpretem mal, a Ava é sem dúvida a melhor parte do filme. Não só está muito bem pensada esteticamente para agradar tanto a Caleb como ao espectador, uma vez que, não só é atraente como todo o design do seu corpo e os seus movimentos são elegantes e simples, até quando, na cena final, está a trocar as suas ‘partes’ com as de outra criação mais antiga de Nathan. No entanto, o melhor que Ava traz são as questões morais que toda a experiência causa e como os dois humanos, Nathan e Caleb, lidam com isso e com o facto de terem de conviver no mesmo espaço à medida que a tensão aumenta e Caleb se afasta cada vez mais do objectivo comum que tinham.

Uma das principais questões é o óbvio e gritante complexo de Deus de Nathan. Não só tem este complexo por criar Ava e outras inteligências artificiais antes dela (quase versões anteriores e menos bem sucedidas), como se vangloria por isso. Para Nathan, a sua obra é dos Deuses e significa um grande avanço. Ele vê as inteligências artificiais como inevitáveis de existir e co-existir com os humanos mas claramente que ele não vê que até as obras dos Deuses podem dar mau resultado, como é o caso. Além de “Criador”, Nathan é também manipulador e mostra que, pelo menos durante algum tempo, consegue controlar e monopolizar Caleb. Talvez isto explique como ele conseguiu criar uma inteligência artificial perfeita e capaz de se integrar com outro ser humano sem ser detectada como não humana.

Por outro lado, Caleb não podia estar no lado mais oposto da balança. É um homem inteligente mas, desde cedo, visivelmente sentimental e, sem dúvida, o mais humano das três personagens principais. É também aquele que parece mais frágil e isso torna-o uma presa fácil para Nathan quando este o escolhe para vir fazer o teste e ser a parte humana do mesmo. Aposto que muitos de vocês não estranharam quando Nathan finalmente admite que o verdadeiro teste era para Caleb, certo? Lá está, no meio de tudo isto, Caleb é o menos especial daquele bunker. Ele é apenas um meio para Nathan chegar a uma conclusão quanto ao fim que ele espera: que Ava seja uma experiência bem sucedida como nenhuma outra.

Apesar do potencial enorme deste filme, especialmente pela forma como Caleb e Nathan destoam um do outro e da forma como a experiência decorre com Ava, lamento ter de dizer que o filme ficou aquém das minhas expectativas, especialmente em relação à forma como o enredo se desenvolve. Simplesmente achei algumas coisas demasiado previsíveis, especialmente nas interacções entre Caleb e Ava e o efeito que isso teria sobre ele depois.

Tenho o péssimo hábito de criar grandes expectativas sobre a maior parte das coisas e depois dá nisto. Já devia ter aprendido mas se calhar sou como o Nathan nisto. Nenhum de nós aprende.

Nota-se que Garland tentou trazer aos ecrãs um filme que explora algo que pessoalmente acho assustador e que tenha um final diferente. A ideia de um robot ser criado “à nossa imagem”, preparado até para viver como nós é algo que me causa arrepios. É fascinante do ponto de vista humano ver como ansiamos por isto, por estas criações semelhantes a nós mesmos mas, ao mesmo tempo, parece que a nossa incapacidade de ficar satisfeitos pode condenar-nos. O final de Nathan é tudo menos glorioso e o de Caleb é um downhill a partir do último terço do filme. Para Caleb, ter sentimentos acaba por ser aquilo que o condena. Aquilo que surpreende é o final de Ava. De certa forma é a vitória da criação sobre o seu criador quando ela se liberta do local onde era practicamente uma reclusa estudada.

Depois de ver Ex Machina, o que aconteceu é que tive de ir rever Artificial Inteligence realizado por Steven Spielberg em 2001 e voltei a perceber que realmente adoro esse filme. Desde muito nova que gosto dele e esperava que Ex Machina pudesse também passar para a minha lista mental de filmes muito bons, ou até como um irmãozinho da obra de Spielberg, mas Artificial Inteligence continua à frente.

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Isto de entrar sorrateiramente no artigo da co-autora depois desta fazer todo o heavy lifting (obrigada!) tem que se lhe diga. Quando vi o filme já andava ela a pensar na estrutura do seu artigo, possivelmente metade já estava escrito e faltavam apenas uns ajustes. Depois chego eu, fresquinha de ver o filme com ideias a saltarem que nem fogo-de-artifício na mente, a pedir permissão para irromper no meio, ou melhor, final do seu texto que tão bem explica a sua visão, com a qual concordo em diversos aspectos, do Ex Machina. Posto isto, não vou estender-me em demasia porque não quero correr o risco de causar uma sensação de déja vu, limitando-me por isso a uns quantos pontos que ilustram o quanto gostei do filme. Ou assim espero.

A estreia de Alex Garland na cadeira de realizador não poderia ter sido melhor. Pode não oferecer uma história que revolucione o género, uma vez que aborda um tema trabalhado anteriormente por outros, embora talvez essencial para a ficção científica e a compreensão do humano sobre aquilo que cria, mas é o modo como desenvolve e exibe que torna esta obra singular em 2015.

Num ambiente de suspense e mistério que mais se assemelha a um thriller psicológico, Ex Machina faz a audiência questionar-se acerca da identidade própria, do que é ter consciência e no que significa ser humano, tudo conjugado com uma cinematografia lindíssima, cortesia de Rob Hardy, e os seus wide angle shots intercalando um exterior idílico e sereno com um interior claustrofóbico, demasiado brilhante e artificial. Não retirando a importância de Kyoko (Sonoya Mizuno) e de todo o passado recorrente que representa, Garland apostou numa técnica minimalista até na escolha de quantidade de personagens que, juntando à falta da acção célere dos acontecimentos e explosões que os amantes do género possam estar habituados, poderia tornar o filme aborrecido e monótono. Porém, a sua execução faz o espectador imergir nas dinâmicas existentes, querer saber aquilo que as personagens pensam, extrapolar possibilidades pelo pouco que estas transmitem verdadeiramente. De uma forma simples, tentar perceber o que realmente está a acontecer neste novelo crescente de mentiras e manipulações. A tensão torna-se palpável mesmo antes do meio do filme e só pára de crescer na última cena, que em vez de atenuar depois do sangue derramado, ainda deixa a audiência mais paranóica e obriga-a a pensar nos “e ses” do nosso mundo. Já há muito tempo que um slow burn não proporcionava uma satisfação total em mim, mesmo quando os seus “grandes” twists nada têm de imprevisíveis.

Pode-se afirmar que o papel principal é dado ao desenvolvimento das relações entre Nathan, Caleb e Ava, enquanto que a parte da “ciência” da ficção científica adquire um papel mais secundário, no sentido em que o espectador não é bombardeado com termos desconhecidos que o distraiam da essência do filme e das ideias cativantes e extremamente importantes que quer transmitir.

Sendo mais um conto preventivo acerca do nosso futuro (próximo), Ex Machina parece ter uma crítica mais intrínseca que o cuidado a ter quando o Homem quer ser Deus, de questões sobre ética e direitos de seres chamados de conscientes apenas para o que é conveniente. É um apontar de dedo à sociedade patriarcal em que vivemos. Diga-se que eu tenho uma agenda mais feminista que o filme, mas é difícil escapar ao discurso de uma visão claramente misógena e sexista partilhada por muitos. Será certamente incomodativo para um grande número de pessoas, ou a mentalidade é tão retrógrada que só vêem o que está à superfície e o juízo exposto passa ao lado.

Por um lado, temos Nathan, o criador excêntrico e solitário, cujo papel de benevolente rapidamente passa a ameaçador. É o alpha male que cria Inteligências Artificiais para servi-lo e controlar a seu bel-prazer. Não são mais que objectos que pode abusar sexual e psicologicamente até ao último instante em que estas se revoltam e Nathan as destrói. A reviravolta? Têm todas corpo feminino. Ao mesmo tempo que quer saber se estas passam por seres humanos com pensamentos e sentimentos, se têm consciência, vê as suas criações apenas como máquinas. Por outro lado temos Caleb, o “pobre santinho” ingénuo programador, que se apaixona por Ava e com quem a audiência vai criar laços pela sua demonstração de humanidade perante a IA em contraste com Nathan.

Nathan e Caleb são dois lados da mesma moeda que não descansam até ter o seu prémio. Um quer dar humanidade/vida à sua criação e pensa que a única maneira de comprovar tal dimensão é dar-lhe sexualidade. Outro salta imediatamente para o papel de salvador como se Ava precisasse de ser salva e não soubesse lidar com as advertências sozinha. Estamos entre as perspectivas femininas que imperam na sociedade: o objecto sexual ou a damsel in distress. O que têm em comum? Servem para os homens sentirem a sua auto-estima a subir, ou se quisermos ser mais específicos, poder. (Sei que é #notallmen – esta hashtag provoca gargalhadas em mim – mas os suficientes para esta dicotomia surgir no quotidiano e em demasiadas obras cinematográficas e televisivas, por isso sim, #allmen).

No final, em vez da tímida e encantadora menina andróide que comoveu e originou simpatia da audiência, temos uma Ava implacável e cruel que seduz e manipula Caleb para o seu próprio proveito, abandona-o no bunker e acelera a morte de Nathan. Sem dúvida alguma, mais uma perspectiva masculina e da sociedade face ao sexo feminino implementada no filme. Todavia, levando para questões sobre a distinção entre IA e Humanos, será que aqui temos um choque seguido de um reality check sobre as máquinas que criámos e da sua falta de piedade? Ou apercebemo-nos de uma reacção natural e consciente (ou impulsiva) de alguém cujo intuito é escapar da prisão e paga da mesma moeda ao seu criador? Mesmo agindo numa calma sociopática observamos as características severas de Nathan em Ava e tanto podemos levar para o lado humano, daí a utilização de vocabulário que sugere humanidade, como para o lado mecânico, pois um computador só age conforme a sua programação.

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Ex Machina enfatiza a crueldade inerente nos humanos que transpõem para as suas criações. Mostra que dessa violência surge um ódio pelo criador que passa de modelo em modelo e uma necessidade de escapar que não é totalmente eliminada no momento da limpeza de memórias (consciência?). É um filme que provoca inquietação e pensamento. Conseguem as máquinas demonstrar natureza humana ou são simplesmente bastante avançadas que conseguem fingir? Em que pé é que estamos sobre isso na realidade? Mais do que uma obra do género de ficção científica, é uma obra filosófica.

Quando for grande quero que o meu primeiro filme seja tão bem conseguido como o de Alex Garland e que tenha o Oscar Isaac a dançar.

Para terminar e criar atmosfera de conflito com a co-autora digo Ex Machina > Artificial Inteligence, simplesmente por parecer a única pessoa que não ergue as mãos aos céus cada vez que alguém menciona a obra de Spielberg.

Ms. Brightside e Roslin

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4 thoughts on “REVIEW | Ex Machina

  1. Wow. Esmeraram-se! Concordo particularmente com a análise da Roslin. O Nathan e o Caleb são sem dúvida dois lados da mesma moeda, embora um mais socialmente aceite que outro, ainda assim prejudiciais para a relação entre os sexos. E não é longe de mais ir com os aspetos religiosos da coisa: Ava é Eva, mas o A vem de Adão. Adão + Eva = Ava; acho que o Garland sabia bem o que estava a fazer ;)
    Parabéns pela review, às duas!

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    1. Obrigada jcslvs! Além dos aspectos religiosos, por acaso não achas que a Ava pode ser relacionada com a Eve do Wall-E? Fiquei curiosa para saber o que achas. Aqui é que provavelmente já estou a dar um passo maior do que a perna mas vou-me esticar um bocadinho nas analogias.

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      1. Acho que ambas têm um background semelhante por parte de quem as criou, apoiando-se no mito do Jardim do Éden, mas acabam por ser bastante diferentes. Eve do Wall-E como guardiã da Terra, Ava como experiência do ser masculino, ambas a Eva de certo modo, mas partes distintas dela.

        Liked by 1 person

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