REVIEW | The Graveyard Book, Neil Gaiman


Título:
The Graveyard Book
Autor: Neil Gaiman
Ano de Publicação: 2008
Sinopse: Nobody Owens podia ser um rapaz absolutamente normal, tirando o facto de viver num cemitério e de ter sido criado por fantasmas e almas penadas sempre guardado por Silas, o guarda solitário que não está nem morto nem vivo. (fonte)

Somos feitos de vontades. Em algumas ocasiões somos comandados por elas, sejam estas mais ou menos benéficas para a nossa pessoa. Relativamente aos hábitos de leitura, algo que muitos consideram um passatempo relaxante, também não conseguimos escapar-lhes. Demorei duas décadas (mais IVA) para conhecer autores em quem poderia confiar nos momentos em que o bichinho da leitura desaparece ou quando os livros da prateleira não chamam a atenção, de modo a conseguir readquirir o fascínio pela magia das palavras. Não é que tenha sido perdido, somente acredito que, de vez em quando, goste de brincar às escondidas com os leitores enquanto a pilha de obras por ler vai aumentando e a vontade diminuindo. Neil Gaiman e o seu imaginário fantástico é um desses autores.

The Graveyard Book é o terceiro livro de Gaiman a solo que leio, tendo começado há muitos anos por Coraline, adaptado ao cinema por Henry Selick, e regressado o ano passado com The Ocean at the End of the Lane. Vencedor de prémios como Carnegie Medal, Newbery Medal e Hugo Award for Best Novel, este curto livro conta a história de um rapaz chamado Nobody Owens cuja família é assassinada por um homem misterioso – The Man Jack – e que escapa do mesmo destino ao entrar no cemitério no topo da colina e ser escondido por aqueles que lá vivem (ha!). Deparados com um bebé abandonado sem possibilidades de sobreviver sozinho e com o perigo ainda à espreita, pois o assassino não desiste de terminar aquilo que começou, os habitantes unem-se para protegê-lo. Nobody é adoptado pelo casal Owens, tem como guardião o enigmático Silas e com a denominada “Liberdade do Cemitério”, algo nunca antes dado a alguém vivo, cresce num ambiente mórbido que em primeira instância parece não ser o mais indicado para um criança, mas que se torna na sua casa e onde pode viver aventuras de um modo seguro. Se a descrição puxa alguns fios de memórias é porque leram The Jungle Book de Rudyard Kipling ou viram a sua adaptação da Disney. Reza a lenda que a inspiração surgiu quando o filho de Gaiman andava de triciclo pelo meio de campas e este lembra-se de ter pensado como seria interessante contar algo parecido com a história de Mowgli, mas com a acção num cemitério. E não é que o senhor tinha razão?

Não é um livro de alta fantasia ao modo de Tolkien ou Martin. The Graveyard Book é uma fatia do nosso mundo salpicado com elementos sobrenaturais que o tornam mais pitoresco e suscitam curiosidade. O leitor acompanha o crescimento de Nobody numa sucessão de episódios desde a infância até à adolescência rodeado por personagens intrigantes, como Silas e Miss Lupescu, que ajudam na sua educação e desenvolvimento, aprendendo não só a ler, escrever e outros mistérios do universo, como também a desaparecer e provocar sentimentos em outras pessoas, como se se tratasse de um verdadeiro habitante não-corpóreo do cemitério, tornando-se num rapaz afectuoso, inteligente e encantador.

Como qualquer herói, Bod tem os seus desafios e conflitos pelos quais terá de passar até ao clímax do reencontro com o assassino da sua família, tal como se fossem uma instrução constante de força e astúcia para o derradeiro final. É com essas características por viver em comunidade com os seus fantasmas que Bod conhece The Sleer, o mais velho residente do cemitério e vence-o nos seus truques que até então tinham aliciado homens que terminaram num final infeliz; escapa dos ghouls que querem transformá-lo num deles, ainda que com a ajuda de Miss Lupescu na sua forma sobrenatural, e combate bullying durante o curto espaço de tempo que Silas permite que vá à escola com a promessa de não gerar atenção sobre si. Durante estas peripécias conhece Scarlett, uma rapariga que visita o cemitério, e com quem tem uma amizade. Este seu lado carinhoso e de compaixão leva-o ainda a criar laços com Elizabeth Hempstock (a minha surpresa quando reencontrei um apelido tão familiar anteriormente visto em The Ocean at the End of the Lane), morta por ser considerada bruxa, e a tentar arranjar uma lápide com o seu nome, algo que esta nunca teve. Um detalhe que oferece riqueza à história é o facto de Gaiman, ao apresentar novas personagens, acrescentar os seus epitáfios oferecendo uma janela ao que foram e fizeram em vida e, consequentemente, dando mais personalidade às mesmas.

Bod só toma conhecimento do que aconteceu com os seus pais e irmã na adolescência e é a partir desse momento que o rumo da sua vida muda em direcção à vingança mesmo não tendo permissão para sair do cemitério. Quando o leitor descobre que The Man Jack faz parte de uma organização de Jacks of All Trades e de toda a profecia que coloca Bod como principal razão desta organização terminar, toda a história levanta questões sobre o destino e livre arbítrio. Nobody Owens age de sua livre vontade ou é a profecia que se faz ouvir? Ainda mais, com o resultado do clímax, Bod perde a sua amizade com Scarlett pelo modo como agiu e enganou The Man Jack, agora prisioneiro de The Sleer. Deveria o rapaz simpático e que sabemos ser boa pessoa ter perdoado aquele que matou a sua família e também o quis matar? Até que ponto poderá alguém mostrar piedade?

O travo agridoce que o final deixa no leitor, o facto de ir perdendo a “Liberdade do Cemitério” e os atributos que dela advêm, como se o próprio cemitério soubesse que essa protecção já não fosse necessária, é atenuado pela quantidade de aventuras que Bod ainda vai experienciar. Deixar o cemitério não é sinal da falta de importância que este teve, mas marca o final de um capítulo da sua vida que agora terá de continuar a ser vivida junto daqueles que são seus pares. Bod tem o mundo inteiro ao qual pertence para conhecer e quem sabe se no último capítulo da sua vida não reencontrará a sua família adoptiva com quem poderá partilhar o resto da eternidade.

You’re alive, Bod. That means you have infinite potential. You can do anything, make anything, dream anything. If you can change the world, the world will change. Potential. Once you’re dead, it’s gone. Over. You’ve made what you’ve made, dreamed your dream, written your name. You may be buried here, you may even walk. But that potential is finished.

Raramente consigo escolher uma única cena como a mais marcante em todo o livro, recorrendo a uma panóplia delas com as suas respectivas razões por detrás da selecção e fuzilando com o olhar qualquer pessoa que peça algo mais específico. Porém, desta vez, Gaiman conseguiu o que anteriormente parecia impossível. Ao escrever a sua própria danse macabre conquistou todos os meus sentidos. Para quem não sabe é uma alegoria da Idade Média onde os mortos, ou a personificação da Morte, dança com os vivos e acompanha-os até às suas campas. Uma forma macabra, palavra que mais descreve esta época, de demonstrar a universalidade da morte. Aqui os mortos apenas dançam com os vivos e no dia seguinte ninguém recorda o sucedido, não deixando o ambiente sinistro chegar a um nível demasiado aterrador. Pelo contrário, é visto como uma festa e descrito dessa mesma forma com flores brancas a nascerem no cemitério pela primeira vez em oitenta anos, os preparativos dos fantasmas, a música que cria um efeito de embriaguez nas pessoas e a própria dança, frenética e imparável. Gaiman dá um espectáculo visual e sonoro recorrendo meramente a palavras cuja magia origina imagens saídas de um filme de Tim Burton na mente do leitor.

É este o dom de Neil Gaiman. Não recorre a descrições longas e desnecessárias, mantendo uma escrita bastante on point sem floreados, embora com o toque de fantasia fundamental nas suas obras. Com a sua escrita simples proporciona um aspecto visual dos acontecimentos ao público alvo de The Graveyard Book, os mais jovens, e, consequentemente, uma leitura mais divertida. Não obstante, é uma leitura adorável, cativante e leve até mesmo para os adultos que provavelmente encontrarão outros significados e farão outras análises do livro.

O que vinha mesmo a calhar era uma backstory para Silas, Miss Lupescu e a Honor Guard.

★★★★☆

Roslin

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