ESPECIAL HALLOWEEN | Vampiros, Paródias e a Valsa

Nosferatu-3

Estamos naquela época em que parece que estamos a viver as quatros estações do ano durante um único dia. É o calor da tarde, a chuva repentina acompanhada pelo vento e o frio nas altas horas da madrugada que se prolonga até de manhã. Contudo, mesmo que ainda não andemos com as camisolas de lã e a queixar-nos do quanto elas incomodam, com a mudança da hora afirmou-se a época da bebida quente e da manta no canto do sofá. É o final de Outubro! É tempo de abóboras! É Halloween! E como não celebro à moda americana e prefiro castanhas, celebro à moda Rabo-no-Sofá com obras cinematográficas pouco assustadoras que já fazem parte do meu leque de preferências para (todo o ano) esta época desde criança e, sinceramente, caso a meteorologia esteja contra a população de Portugal, este género de celebração é bastante mais… seco e confortável.

Nosferatu, F. W. Murnau (1922)
Ninguém é um verdadeiro amante de terror se ainda não viu esta autêntica referência do género. Não venham com desculpas de ser um filme antigo, a preto e branco e sem os efeitos especiais a que agora estão habituados. É claro que a reacção que temos na actualidade não é igual à que o mundo teve da primeira vez que viu, mas sintam a atmosfera sombria, observem o jogo de sombras e luzes, os cenários acabados de sair de um pesadelo de qualquer humano, o terror nos símbolos e acontecimentos sobrenaturais. Olhem para o magnífico Conde Orlok de Max Schreck e digam se não sentem um arrepio no fundo da espinha. É aterrador na sua maquilhagem exagerada, grotesco na sua fisionomia com dedos compridos e orelhas pontiagudas. Nosferatu faz parte do movimento cinematográfico que, por alguma razão, conseguiu encher todo o meu coração de amadora de cinema, o Expressionismo Alemão e, por isso mesmo, além de uma cópia do que se tornaria um clássico da Literatura, é, acima de tudo, o retrato da inquietude e descontentamento vividos por uma sociedade que colapsou após a Primeira Guerra Mundial. É uma obra que une o histórico à fantasia oferecendo um estudo psíquico da população alemã e calafrios aos seus espectadores.* Um perfeito filme de terror por tudo aquilo que carrega em cima dos seus ombros.

E quem é que não aprecia uma bela adaptação não autorizada? Os herdeiros de Bram Stoker pelos vistos não. Chill. Antes de haver um homem à procura de sangue novo em terras inglesas já tinha existido uma rapariga que fazia anagramas com o seu nome para passar despercebida durante anos e continuar a saltar de quarto em quarto a beber sangue. Façam um favor a vocês próprios: peguem nas pipocas e prezem uma das obras-primas de Murnau.

* Grandma, how pretentious you sound…

Young Frankenstein, Mel Brooks (1974)
Há duas maneiras de ver este filme. Ou esperamos até vermos os clássicos de horror relacionados com a obra literária de Mary Shelley até lá realizados, principalmente o Frankenstein de James Whale, de modo a conseguirmos apanhar as pequenas referências e tornar a visualização mais rica; ou atiramo-nos de cabeça para uma das melhores comédias assustadoras do século. De qualquer das maneiras Young Frankenstein é um daqueles (raros) filmes que fica melhor a cada vez que vemos.

A história é clássica, embora ligeiramente modificada. Não temos Victor Frankenstein, mas o seu neto, Henry, que descobre as suas anotações de como reanimar um corpo. Misturando uma quantidade certa de tolice, diálogos provocadores de gargalhadas vindas bem lá do fundo do nosso ser e um elenco cujo sinónimo mais perto para descrever é “perfeito” (Gene Wilder está no seu auge, mas o Igor de Marty Feldman ainda consegue fazer com que caia do sofá mesmo não tendo qualquer diálogo ou estando no plano secundário e Cloris Leachman é genialmente cómica na sua creepiness), Brooks dá ao público o melhor que uma paródia tem para oferecer, uma vez que não cai no ridículo de ser apenas um conjunto de piadas medíocres com um pedaço de narrativa colada e sim, uma narrativa bem construída que contém piadas de qualidade; e, ao mesmo tempo, presta homenagem ao original literário, à primeira adaptação cinematográfica e ao cinema no geral com os seus toques de expressionismo. Embora Young Frankenstein possa ser primeiramente uma comédia, não podemos negar a sua capacidade de captar a atmosfera arrepiante que a história e o público desejam ver.

E não se esqueçam que é “FRONKENSTEEEEEN”.

The Addams Family, Barry Sonnenfeld (1991)
Se me perguntarem qual é a minha família favorita do mundo da sétima arte começo a assobiar uma das mais emblemáticas theme songs. Há reacções que simplesmente não conseguimos controlar.

Baseado nas personagens do cartoonista Charles Addams, se não contarmos com o facto de ser o marcador do início da carreira de Sonnenfeld como realizador, este não é um filme pioneiro em qualquer característica especifica no cinema. Ninguém ergueu as mãos aos céus e questionou como é que o filme foi conseguido de maneira tão maravilhosa, não revolucionou o modo como realizadores contam a sua história como Orson Welles fez aos 25 anos. O cinema em nada foi alterado ou analisado de outra forma com o aparecimento desta família excêntrica. É aquele género de filme que os canais portugueses passam (ou deviam passar) em épocas festivas para toda a família. O que é que torna este filme tão especial?

O especial é a representação de uma família bizarra que vive o macabro ao expoente máximo e pouco se importa com aquilo que os seus vizinhos pensam, mas que não cai no cliché de ser cruel para com aqueles que os rodeiam ou de planear uma vingança contra o mundo que não os aceita na sua excentricidade. Em vez disso, temos uma família devota às crianças, simpática e cordial com conhecidos e um casal apaixonado, apesar da quantidade de anos junto, cujas partes são parceiras em tudo. Os Addams dão-nos uma visão de uma família feliz porque vive fora das expectativas da sociedade.

Temos humor deliciosamente negro, piadas sado-masoquistas e puns de fazer os olhos revirar. Acima de tudo, um elenco que faz questionar se esta gente toda não faz realmente parte de uma única família só pela sintonia e dinâmica que partilham no ecrã, especialmente Raul Julia e Anjelica Huston que até hoje ganham a medalha de par mais romântico e com mais química. Vivi durante muitos anos na ilusão do casamento significar dançar a valsa a cada cinco minutos. É isto que o cinema faz aos espectadores. Cria expectativas irreais.

Spooky e divertido é a receita certa para um Halloween bem passado e se algum dia alguém fizer uma caixa de filmes com o título Never Gets Old, tenho a certeza que The Addams Family é o primeiro da lista.

morticia gomez (2)

Outros clássicos obrigatórios: Psycho (1960), The Rocky Horror Picture Show (1975), Carrie (1976), Ghost Busters (1984), Saw (2004).

Roslin

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